quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Agricultura moderna e agrotóxicos

Na postagem anterior, foi introduzida a ideia, entre outras, de que o capitalismo mudou radicalmente o modo de produção dos alimentos, possibilitando a produção em massa, mas trazendo para a população diversos perigos para a saúde. Nesse novo modo, passaram a ser utilizadas algumas ferramentas que aumentam a quantidade e a durabilidade dos produtos obtidos (mas não necessariamente a qualidade destes), como agrotóxicos, fertilizantes, transgênicos, máquinas agrícolas e a posterior industrialização dos alimentos (tópico que será discutido em postagens subsequentes).

Um argumento bastante utilizado para defender a agricultura moderna é o de que, mesmo com as desvantagens, ela seria o único meio para o combate ao problema da fome mundial e para a alimentação das bilhões de pessoas que ainda nascerão já que a população cresce cada vez mais aceleradamente. Este é um argumento falho. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o mundo já produz alimentos suficientes para toda a população do planeta e, ainda assim, 840 milhões de pessoas passam fome nos dias atuais. Isso, porque um terço desses alimentos são desperdiçados. Percebe-se, assim, que a agricultura moderna não tem como objetivo sanar a fome mundial, sua real meta é obter lucro. Nada mais natural, já que está intrinsecamente ligada ao capitalismo.

Desmembrado este conceito de que o atual meio de produção de gêneros alimentícios tem como objetivo final algo que não o lucro, iremos, hoje, focar nossa discussão em uma ferramenta utilizada pelas grandes empresas agrícolas: os agrotóxicos.

A discussão a respeito destes produtos químicos é tão extensa, que até a nomenclatura para os mesmos é debatida e, apesar de não parecer, de grande importância. Isso, porque ela influencia a maneira que eles são percebidos. O termo agrotóxico dá uma ideia mais acurada e esclarecedora para agricultores e consumidores da nocividade do mesmo a toda a classe de seres vivos. Já os termos defensivos agrícolas, pesticidas e praguicidas escondem os malefícios para a saúde do homem e para o meio ambiente, além de dar a ideia de que as plantas são extremamente vulneráveis a doenças e pragas. Esse último tipo de denominação favorece os interesses do capital estrangeiro, que vende insumos para países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, como o Brasil, que têm sua agricultura dominada pela aparente necessidade da utilização desses produtos químicos.  Após muitas discussões, a Norma Regulamentadora Rural nº 5 (NRR 5) regulamentou os agrotóxicos e finalmente pôs de lado as nomenclaturas que enganam os ouvidos, definindo-os da seguinte forma:

“Entende-se por agrotóxicos as substâncias, ou mistura de substâncias, de natureza química quando destinadas a prevenir, destruir ou repelir, direta ou indiretamente, qualquer forma de agente patogênico ou de vida animal ou vegetal, que seja nociva às plantas e animais úteis, seus produtos e subprodutos e ao homem.”

Utilizou-se diferentes tipos desses compostos químicos para o controle de pragas no decorrer das décadas. Desde compostos inorgânicos e extratos vegetais nos séculos XVIII, à época do início da mecanização da agricultura, aos atuais inseticidas orgânicos sintéticos. Um importante inseticida descoberto foi 1,1,1-tricloro-2,2-di(ρ-clorofenil) etano, conhecido como DDT, que deu origem ao termo dedetização. O DDT é classificado como um organoclorado, composto por átomos de carbono (C), hidrogênio (H) e cloro (Cl). As principais características dos organoclora- dos são: insolubilidade em água; solubilidade em líquidos apolares como éter, clorofórmio e, consequentemente, em óleos e gorduras, o que ocasiona o acúmulo do DDT no tecido adiposo dos organismos vivos; e alta estabilidade, pois demora muitos anos para ser degradado na natureza devido à baixa reatividade das ligações químicas presentes no composto em condições normais. Em razão disso, abandonou-se a utilização dos organoclorados em busca de opções menos nocivas. Desenvolveu-se, então, diversos tipos de agrotóxicos (organofosforados, carbamatos, microbiais, entre outros) e continua-se a desenvolvê-los, visto que os organismos criam resistência aos mesmos após certo tempo. 


Mesmo com o abandono de compostos como o DDT, os agrotóxicos ainda provocam graves prejuízos para o ser humano, que classificam-se em efeitos agudos (danos notáveis em 24 horas) e efeitos crônicos (resultantes de exposição contínua a doses baixas). As diferentes classes de pesticidas causam diferentes sintomas e problemas ao organismo. Como exemplo, temos os inseticidas da classe dos organofosforados que, bem como os carbamatos, atuam no organismo humano inibindo um grupo de enzimas denominadas colinesterases. Essas enzimas atuam na degradação da acetilcolina, um neurotransmissor responsável pela transmissão dos impulsos no sistema nervoso (central e periférico). Uma vez inibida, essa enzima não consegue degradar a acetilcolina, ocasionando um distúrbio chamado de crise colinérgica, principal responsável pelos sintomas observados nos eventos de intoxicação por estes produtos. Vários distúrbios do sistema nervoso foram associados à exposição aos agrotóxicos organofosforados, principalmente aqueles ligados à neurotoxicidade desses produtos, observados através de efeitos neurológicos retardados. Além disso, foram detectadas evidências de que os herbicidas fenoxiacéticos seriam promotores de carcinogênese (processo de constituição de um câncer) em seres humanos, devido à presença de dioxinas como ‘impurezas’ na sua composição.



É notado, apenas com estes poucos exemplos, a nocividade dos agrotóxicos para a saúde de toda a população, visto que a grande maioria dos produtores agrícolas do mundo utiliza-se cada vez mais esses compostos químicos. É necessária a busca por alternativas viáveis para os mesmos, alternativas essas que não interfiram na saúde humana. 

Referências:


LUTZENBERGER, J. A. O absurdo da agricultura. São Paulo, Set./Dez. 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0103-40142001000300007&script=sci_arttext. Acessado em: 09 out. 2014.

PERES, F. MOREIRA, J. C. DUBOIS, J. S. Agrotóxicos, saúde e meio ambiente: uma introdução ao tema. Rio de Janeiro, 2013. Disponível em: http://books.scielo.org/id/sg3mt/pdf/peres-9788575413173-03.pdf